Controle biológico de percevejo na soja: ROI e resultados

Controle biológico de percevejo na soja: o que a pesquisa mostra e qual o retorno

O percevejo é uma das pragas que mais tiram produtividade da soja no Brasil. O controle químico continua sendo a base do manejo, mas tem limites: populações resistentes, reaplicações e, no caso do percevejo castanho, a dificuldade de atingir um inseto que vive no solo.

Os biológicos entram justamente nesse espaço. Neste artigo, reuni o que a pesquisa brasileira já mediu sobre o controle biológico de percevejo na soja com duas ferramentas: a bactéria Chromobacterium subtsugae e o fungo Metarhizium anisopliae. No fim, mostro o ROI aproximado de cada uma, calculado com a soja a R$ 148,23 a saca (cotação Agrolink de 17/09/2026).

Por que usar biológicos no manejo de percevejos

Os bioinseticidas atacam o inseto por caminhos diferentes do químico:

  • Chromobacterium subtsugae: age por ingestão. Produz metabólitos como violaceína e cromamidas, que afetam a alimentação e a fisiologia do percevejo.
  • Metarhizium anisopliae: age por contato. O fungo germina sobre a cutícula, penetra no corpo do inseto e o coloniza por dentro.

Somar modos de ação diferentes é um dos princípios do manejo integrado de pragas (MIP) e ajuda a reduzir a pressão de seleção sobre as moléculas químicas.

Percevejo marrom (Euschistus heros)

Chromobacterium associado ao inseticida químico

Um ensaio de campo conduzido pela Universidade Estadual de Maringá em Campo Mourão, PR, testou a bactéria sozinha e associada a três inseticidas: bifentrina + imidacloprido, lambda-cialotrina + tiametoxam e acefato. Foram três aplicações, em R1, R3 e R5.

O resultado, 10 dias após a terceira aplicação:

TratamentoControle de ninfas
Bifentrina + imidacloprido sozinho68,8%
Bifentrina + imidacloprido + Chromobacterium86,8%
Lambda-cialotrina + tiametoxam sozinho63,6%
Lambda-cialotrina + tiametoxam + Chromobacterium79,3%
Acefato sozinho57,7%
Acefato + Chromobacterium70,5%

Nas três moléculas, a bactéria somou de 22% a 28% de controle ao químico, com diferença estatística em todos os casos. A melhor associação também teve maior produtividade e melhor qualidade de grão.

Metarhizium no percevejo marrom

Em estudo da Embrapa Arroz e Feijão com o Instituto Federal Goiano, o Metarhizium anisopliae causou 98% de mortalidade em adultos mesmo em baixa concentração. O dado que mais chama atenção é outro: os percevejos infectados reduziram em 86% o tempo de alimentação já no quarto dia. Ou seja, antes de morrer, o inseto já para de danificar o grão.

Em laboratório, um estudo do Centro Universitário de Patos de Minas registrou 80% de mortalidade em quatro dias e 100% em seis dias com produto comercial à base do fungo.

Percevejo castanho (Scaptocoris castanea)

O desafio de uma praga de solo

O percevejo castanho vive no perfil do solo, suga as raízes e causa reboleiras de plantas amareladas e murchas. Em períodos secos, pode descer mais de um metro de profundidade. Por isso o químico isolado raramente passa de 50% de controle.

Metarhizium aplicado no sulco

Em ensaio de campo em Rio Verde, GO, apresentado na 37ª Reunião de Pesquisa de Soja, o Metarhizium anisopliae foi aplicado no sulco de plantio e repetido aos 14 dias após a emergência, com jato dirigido ao solo. A área tinha alta infestação.

  • Ninfas: 56% a 79% de controle aos 14 dias e 34% a 73% aos 35 dias, com efeito dose resposta.
  • Adultos: até 55% de controle aos 14 dias e até 60% aos 35 dias.
  • Produtividade: de 3 a 7 sacas a mais por hectare frente à testemunha.

Antes disso, a Embrapa Agropecuária Oeste já havia mostrado em laboratório que a escolha do isolado faz diferença. Entre quatro isolados testados, dois se destacaram pela menor dose letal e foram indicados para uso a campo.

E o Chromobacterium no percevejo castanho?

Até agora, não há trabalho publicado no Brasil testando a bactéria contra o percevejo castanho. Os estudos com Chromobacterium na soja são todos com pragas da parte aérea.

ROI aproximado do controle biológico

Com a soja a R$ 148,23 a saca, o retorno aproximado de cada estratégia fica assim:

EstratégiaROI aproximado
Chromobacterium associado ao químico (percevejo marrom)16 a 21 para 1
Chromobacterium isolado frente à testemunha (percevejo marrom)30 para 1
Metarhizium no sulco (percevejo castanho)18 a 42 para 1

Em outras palavras, o investimento no biológico se paga com uma fração muito pequena de saca por hectare.

Cuidados antes de aplicar

  • Leia os números com critério: parte dos ganhos de produtividade citados não teve diferença estatística. O ganho em controle, sim.
  • Mistura de biológicos: não existe trabalho publicado com Chromobacterium e Metarhizium juntos. A bactéria produz quitinases, enzimas que podem afetar o fungo. Faça teste de compatibilidade antes de misturar em tanque.
  • Sem fungicida na calda do fungo: compromete a viabilidade do Metarhizium.
  • Umidade no solo: favorece o fungo, principalmente no percevejo castanho.
  • Monitoramento: use pano de batida para o percevejo marrom e trincheiras para o percevejo castanho.
  • Área demonstrativa: uma faixa testemunha na própria fazenda é a melhor forma de confirmar o resultado na sua região.

Perguntas frequentes

O controle biológico substitui o químico no percevejo?

Não. O biológico complementa o químico dentro do manejo integrado. Nos ensaios, os melhores resultados vieram da associação.

Qual biológico usar para percevejo castanho?

O Metarhizium anisopliae é o que tem mais pesquisa no Brasil contra o percevejo castanho, com aplicação no sulco de plantio.

Chromobacterium funciona para percevejo marrom?

Sim. Em campo, associado ao inseticida químico, elevou o controle de ninfas para até 86,8%.

Posso misturar Chromobacterium e Metarhizium?

Ainda não há estudo publicado com os dois juntos. Recomenda-se teste de compatibilidade antes da mistura.

Conclusão

A pesquisa brasileira mostra que o controle biológico de percevejo na soja já tem base sólida. O Chromobacterium soma controle ao químico no percevejo marrom, e o Metarhizium é hoje a principal ferramenta biológica para o percevejo castanho. Com ROI aproximado acima de 16 para 1, os biológicos deixam de ser custo e passam a fazer o químico e o monitoramento renderem mais.

Referências

  1. COSTA, A. A.; GUERREIRO, J. C. Performance de Chromobacterium subtsugae associada a inseticidas químicos no manejo de Euschistus heros na cultura da soja. Journal of Agronomic Sciences, v. 13, n. 1, p. 268 a 284, 2024.
  2. ALMEIDA, A. C. S. et al. Can Metarhizium anisopliae reduce the feeding of the neotropical brown stink bug, Euschistus heros, and its damage to soybean seeds? Journal of Fungi, v. 11, n. 4, 247, 2025.
  3. PORTO, N. S.; GARCIA, E. Q. Uso de microrganismos entomopatogênicos no controle populacional de Euschistus heros. Revista Perquirere, v. 19, n. 2, p. 104 a 113, 2022.
  4. SILVA, J. B.; FERRO, H. M.; RATTES, J. F.; JACOBY, G. L. Eficiência do inseticida microbiológico Meta Turbo SC no controle de percevejo castanho na cultura da soja. Anais da 37ª Reunião de Pesquisa de Soja, Londrina, 2019.
  5. XAVIER, L. M. S.; ÁVILA, C. J. Patogenicidade, DL50 e TL50 de isolados de Metarhizium anisopliae para o percevejo castanho das raízes Scaptocoris carvalhoi. Ciência Rural, v. 35, n. 4, p. 763 a 768, 2005.