Beauveria bassiana contra pragas de soja, milho e sorgo

Resumo

Beauveria bassiana é um fungo entomopatogênico amplamente utilizado no manejo integrado de pragas em diversas culturas agrícolas. Este artigo aborda seu uso no controle biológico de insetos-praga nas lavouras de soja, milho e sorgo, destacando os principais alvos (como percevejos, lagartas e pulgões) e citando resultados de pesquisas científicas recentes. São discutidos a eficácia alcançada contra pragas-chave em cada cultura e as limitações associadas ao emprego do fungo em campo. Com linguagem técnica acessível, o texto explora comparações de eficiência, vantagens ambientais e desafios práticos do uso de B. bassiana, incluindo a necessidade de formulações adequadas e integração com outros métodos de controle para maximizar seus benefícios.

Introdução

O fungo Beauveria bassiana (Balsamo) Vuillemin é um importante agente de controle biológico de insetos, pertencente ao grupo dos fungos entomopatogênicos. Ele ocorre naturalmente no solo e infecta uma grande variedade de insetos, causando a doença conhecida como “muscardine branca”. Seus esporos aderem à cutícula do inseto, germinam e penetram no corpo, culminando na morte do hospedeiro pela ação combinada da colonização fúngica e toxinas inseticidas produzidas. Devido a seu amplo espectro de ação e segurança ambiental, B. bassiana tornou-se uma alternativa valiosa em programas de manejo integrado de pragas (MIP), oferecendo um meio ambientalmente amigável de controle de insetos em substituição parcial aos inseticidas químicos.

No Brasil, B. bassiana já é produzido comercialmente e aplicado para manejar pragas de diversas ordens em várias culturas. Isolados deste fungo apresentam variabilidade genética e virulência, permitindo selecionar cepas específicas para alvos particulares. Por exemplo, o isolado IBCB 66 de B. bassiana é registrado como bioinseticida e demonstrou controlar pragas como mosca-branca (Bemisia tabaci), gorgulho-do-bananeiro (Cosmopolites sordidus), ácaro-rajado (Tetranychus urticae), cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) e bicudo-da-cana (Sphenophorus levis). Essa versatilidade reflete a capacidade de B. bassiana infectar insetos de diferentes grupos, indo desde sugadores (por exemplo, pulgões, moscas-brancas e cigarrinhas) até mastigadores (lagartas de diversas espécies) e mesmo pragas de solo. A seguir, discutimos seu uso específico nas culturas da soja, milho e sorgo, enfatizando as principais pragas alvo em cada caso, níveis de controle reportados e limitações encontradas.

B. bassiana no controle de pragas da soja

A cultura da soja (Glycine max) sofre ataques de pragas desde a germinação até a colheita, e o controle químico intensivo desses insetos tem levado a problemas como resistência a inseticidas e desequilíbrios ambientais. Nesse contexto, B. bassiana surge como uma importante ferramenta biológica para integrar os programas de manejo. Entre as pragas de soja, destacam-se os percevejos e as lagartas.

Percevejos fitófagos, especialmente o percevejo-marrom da soja (Euschistus heros), estão entre os alvos mais estudados para controle com B. bassiana. E. heros causa danos perfurando vagens e grãos, e populações desse percevejo desenvolveram resistência a inseticidas organofosforados, tornando o controle químico menos efetivo. Pesquisas têm demonstrado que cepas de B. bassiana podem infectar e matar eficientemente esses percevejos. Em laboratório, por exemplo, a aplicação de conídios do isolado Unioeste 76 resultou em aproximadamente 80% de mortalidade de adultos de E. heros após 12 dias. Testes em casa de vegetação e campo confirmam o potencial: em condições controladas, tratamentos com B. bassiana reduziram significativamente as populações de percevejo, e em ensaios de campo o tratamento fúngico isolado conseguiu manter a densidade de E. heros abaixo do nível de dano econômico, de forma comparável a um inseticida químico convencional. Esses resultados ressaltam que o fungo, quando bem formulado e aplicado, pode suprimir populações de percevejos na soja de maneira eficaz e sustentada. Notadamente, uma formulação oleosa de B. bassiana teve desempenho equivalente ao inseticida no campo, indicando viabilidade de uso prático. Entretanto, vale mencionar que os ovos dos percevejos são menos suscetíveis à infecção fúngica, e a velocidade de ação do fungo é mais lenta que a de produtos químicos, o que exige monitoramento e aplicação criteriosa no momento certo do ciclo da praga.

Além dos percevejos, B. bassiana também atua contra lagartas desfolhadoras da soja. Um caso de destaque é a lagarta Helicoverpa armigera, espécie invasora que ganhou importância a partir de 2013, causando danos desde a fase inicial da soja (cortando plântulas) até fases reprodutivas (desfolha e ataque a vagens). Estudos com aplicação foliar de B. bassiana na soja demonstraram que o fungo pode infectar H. armigera com alta eficiência logo após a aplicação. Por exemplo, logo após a pulverização, a mortalidade de lagartas de segundo instar chegou a 86%, embora a persistência dos conídios no campo seja limitada – em cerca de 8 horas sob sol a eficácia caiu para aproximadamente 30%. Isso evidencia uma redução rápida da viabilidade do fungo devido a fatores ambientais (como radiação UV e temperatura), mas também mostra que, em condições ideais ou com aplicações frequentes, B. bassiana pode causar mortalidade substancial em populações de Helicoverpa. Cabe ressaltar que a integração do fungo com outras táticas (por exemplo, uso de cultivares Bt, ou aplicação em horários de menor insolação) pode melhorar os resultados. Outras lagartas da soja possivelmente afetadas por B. bassiana incluem a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis) e a falsa-medideira (Chrysodeixis includens), embora o controle microbiano dessas seja historicamente realizado com vírus e outros fungos (como Nomuraea rileyi). De qualquer forma, a presença de B. bassiana no ecossistema da soja contribui para suprimir surtos de diversas lagartas e é compatível com o uso do vírus da lagarta-da-soja e de outros agentes biológicos, compondo um manejo integrado mais sustentável.

B. bassiana na cultura do milho

No milho (Zea mays), a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) é reconhecida como a praga-chave, capaz de dizimar plantações se não controlada a tempo. O controle dessa lagarta tem sido um desafio devido à sua biologia (hábitos noturnos, refugio no cartucho da planta) e à evolução de populações resistentes a inseticidas e mesmo a variedades Bt. Beauveria bassiana surge como uma alternativa promissora para integrar o manejo da lagarta-do-cartucho e de outras pragas do milho, reduzindo a dependência exclusiva de químicos.

Experimentos em laboratório e casa de vegetação mostram que certas cepas de B. bassiana possuem elevada virulência contra diferentes estágios da Spodoptera. Em bioensaios, isolados de B. bassiana aplicados a ovos de S. frugiperda podem inviabilizá-los (causando até ~87% de mortalidade embrionária), enquanto sobre lagartas neonatas e de instares jovens podem causar mortalidade acumulada superior a 70-90% em até 14 dias. Alguns isolados destacados em estudos recentes alcançaram mortalidade cumulativa de 71% a 93% das lagartas em duas semanas, além de reduzir significativamente a alimentação das lagartas sobreviventes. Estes resultados, obtidos em condições controladas, suportam o uso de isolados efetivos de B. bassiana como agentes biocontroladores contra a lagarta-do-cartucho.

No entanto, a eficiência no campo pode variar. Ensaios com produtos comerciais à base de B. bassiana nem sempre reproduzem as altas mortalidades observadas em laboratório, especialmente contra lagartas em estádios mais avançados. Por exemplo, um estudo sul-africano testando formulados comerciais reportou mortalidades baixas (na faixa de 23–28%) em lagartas de segundo instar, não sendo estatisticamente diferentes do controle em determinadas avaliações. Isso sugere que lagartas maiores e populações estabelecidas são difíceis de suprimir apenas com aplicações foliares de B. bassiana, possivelmente pela menor susceptibilidade e pelo microclima dentro do cartucho que dificulta o contato dos conídios. Estratégias alternativas avaliadas incluem a aplicação do fungo no solo visando atingir a fase de pupa da Spodoptera (que ocorre enterrada): de fato, há evidências de que B. bassiana e outros fungos entomopatogênicos podem infectar pré-pupas e pupas, reduzindo a emergência de adultos e sua fecundidade. Esse enfoque pode complementar o controle das lagartas sobreviventes ao tratamento foliar.

Outra forma de aumentar a eficácia de B. bassiana no milho é através de formulações e combinações. Uma formulação oleosa pode melhorar a adesão e proteção dos esporos sob sol intenso, embora se deva considerar a menor tolerância ao calor observada para conídios formulados em óleo Além disso, a combinação de B. bassiana com inseticidas químicos em aplicações alternadas mostrou-se vantajosa: no controle de E. heros em soja, essa estratégia manteve a praga sob controle econômico de modo sustentável e para lagarta-do-cartucho recomenda-se abordagem semelhante – usar o fungo em conjunto com outras táticas (por exemplo, baculovírus ou doses reduzidas de químicos) para obter supressão rápida e persistente, mitigando a pressão de resistência.

Importante salientar que B. bassiana no milho não se limita à lagarta-do-cartucho. Devido ao seu amplo espectro, pode infectar outras pragas do milho. Por exemplo, cepas de B. bassiana demonstraram controlar a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), vetor de viroses e molicutes na cultura. Essa cigarrinha, ao sugar a seiva, pode ser infectada pelos conídios do fungo presentes na superfície foliar, contribuindo para reduzir a disseminação de doenças como o enfezamento do milho. Outras pragas que podem ser alvo do fungo incluem brocas de colmo e até pragas de armazenamento, embora nesses casos seu uso seja menos comum. Em suma, B. bassiana representa um componente versátil no manejo do milho: apesar de não substituir completamente os métodos convencionais, ele agrega valor no combate a pragas difíceis e na redução da carga de agrotóxicos, alinhando o controle de pragas de milho a preceitos de sustentabilidade.

B. bassiana no sorgo e controle de pulgões

A cultura do sorgo (Sorghum bicolor) compartilha algumas pragas com o milho, como a lagarta-do-cartucho, mas nos últimos anos um novo inseto tornou-se a principal preocupação: o pulgão-da-cana-de-açúcar (Melanaphis sacchari), que desde 2015 causa surtos severos em sorgo no Brasil e em outros países. Esses pulgões formam colônias densas nas folhas, sugando a seiva e podendo levar à perda total da produção de sorgo em infestações não controladas. O manejo tem dependido de inseticidas sistêmicos, porém B. bassiana é investigado como alternativa biológica para conter o pulgão, visando reduzir o uso de químicos e retardar a resistência dos afídeos.

Em condições de laboratório, resultados animadores já foram obtidos. Certos isolados de B. bassiana mostraram alta patogenicidade contra M. sacchari. Por exemplo, o isolado CKB-48 de B. bassiana conseguiu causar mais de 90% de mortalidade em ninfas de pulgão-da-cana em testes laboratoriais. Há também registro de alta virulência de B. bassiana contra múltiplas espécies de pulgões praga, indicando um potencial amplo desse fungo contra afídeos de diferentes culturas. Esses dados sugerem que, sob condições favoráveis (temperatura amena e umidade elevada), B. bassiana pode deflagrar epizootias em populações de pulgão no sorgo, atuando como um agente de controle natural eficaz.

Contudo, a eficácia em campo contra pulgões tem sido inconsistente. Ensaios experimentais em plantios de sorgo demonstraram que aplicações isoladas de B. bassiana nem sempre conseguem reduzir suficientemente as populações de M. sacchari. Um estudo reportou que a aplicação de duas diferentes cepas de B. bassiana em campo não foi capaz de controlar as populações do pulgão-da-cana de forma satisfatória. Nesses mesmos testes, um inseticida específico (flupiradifurona, comercializado como Sivanto) aplicado uma única vez proporcionou controle prolongado durante toda a safra, enquanto o fungo requereria reaplicações frequentes. Os fatores para o desempenho aquém do desejado incluem a rápida multiplicação dos pulgões (que pode superar a taxa de mortalidade causada pelo fungo) e condições ambientais subótimas para a infecção (baixa umidade e alta radiação solar nas folhas de sorgo). Além disso, pulgões podem ocupar a face inferior das folhas, onde a deposição de esporos pode ser menor.

Apesar dessas limitações, B. bassiana ainda é considerado uma ferramenta promissora no manejo do pulgão em sorgo, especialmente em conjunto com outras medidas. Uma possibilidade de uso é aplicar o fungo em conjunto com agentes facilitadores, como óleos vegetais ou adjuvantes, para melhorar a espalhabilidade e aderência dos conídios nas folhas onde os pulgões se abrigam. Outra frente é a combinação com controle natural por predadores e parasitoides: ao reduzir parcialmente a densidade de pulgões e debilitar os sobreviventes (infecções fúngicas subletais podem diminuir a reprodução dos pulgões), B. bassiana pode complementar a ação de joaninhas, crisopídeos e vespas parasitoides, resultando num controle biológico mais robusto. De fato, o sucesso do controle de M. sacchari provavelmente virá de um manejo integrado, unindo cultivares de sorgo mais tolerantes, liberação de inimigos naturais e aplicação de fungos entomopatogênicos nas janelas climáticas favoráveis (dias úmidos ou irrigação pós-aplicação para propiciar a infecção).

Vale notar que no sorgo B. bassiana também pode atuar contra a lagarta-do-cartucho (semelhante ao que ocorre no milho) e possivelmente contra outras pragas foliares ou de solo que eventualmente ataquem a cultura. Embora menos pesquisado no sorgo além do caso do pulgão, a presença do fungo no agroecossistema traz benefícios de supressão geral de insetos-praga. Relatos da ocorrência natural de B. bassiana infectando pragas em campos de sorgo indicam que o fungo pode estabelecer-se no ambiente e ajudar a manter baixas as populações de pragas ao longo do tempo. Em resumo, no manejo do sorgo, B. bassiana oferece uma opção de controle biológico que, aliada a outras táticas, pode reduzir a pressão dos pulgões e outras pragas de forma ambientalmente segura.

Eficiência comparativa e limitações do uso de B. bassiana

A eficiência de Beauveria bassiana como agente de controle de pragas pode variar amplamente conforme a praga-alvo, o ambiente e a forma de aplicação. De maneira geral, em condições controladas de laboratório ou casa de vegetação, isolados virulentos frequentemente demonstram altas taxas de mortalidade em diferentes insetos – como visto com >90% de mortalidade de lagartas de Spodoptera e pulgões, e ~80% em percevejos. Esses resultados sublinham o potencial do fungo quando todos os fatores são favoráveis. Entretanto, no campo a performance costuma ser menor e mais variável. Diversos fatores limitantes entram em jogo:

  • Condições ambientais adversas: Os conídios de B. bassiana são sensíveis à radiação UV, altas temperaturas e baixa umidade. A persistência do fungo sobre a folhagem após a aplicação é curta – estudos mostraram que a viabilidade pode cair drasticamente em poucas horas de exposição solar. B. bassiana tende a se desenvolver otimamente em umidade relativa alta (próxima ou acima de 80%) e temperaturas moderadas (20–30°C). Se o clima está seco ou muito quente, a infecção dos insetos diminui. Por outro lado, períodos chuvosos podem lavar os conídios antes que germinem. Assim, o timing da aplicação é crucial: alvos noturnos ou de hábito escondido (como lagartas em cartucho) exigem aplicar no final da tarde/início da noite; já em pragas expostas, aproveitar dias nublados ou irrigar após aplicar pode melhorar a eficácia.
  • Ação mais lenta que inseticidas convencionais: Enquanto um inseticida químico de contato pode matar insetos em minutos ou horas, B. bassiana leva dias para colonizar e matar o hospedeiro. Durante esse intervalo, as pragas podem continuar causando danos ou reproduzindo-se. Por exemplo, no caso do percevejo-marrom, foram necessários 12 dias para atingir 80% de mortalidade em laboratório. No campo, esse retardo significa que B. bassiana funciona melhor preventivamente ou em infestações iniciais de baixa intensidade. Em surtos agudos, ele sozinho pode não impedir perdas econômicas imediatas.
  • Cobertura e alcance da aplicação: Sendo um patógeno de contato, é fundamental que os esporos atinjam o corpo dos insetos-alvo. Pragas que ficam em locais abrigados (dentro de cartuchos, abaixo das folhas ou dentro de vagens) podem escapar do contato, reduzindo a efetividade. Técnicas de aplicação (volume de calda, uso de óleo, aditivos espalhantes) têm impacto grande no sucesso. Formulações oleosas, por exemplo, ampliam a dispersão dos conídios na folhagem e aumentam a adesão, chegando a cobrir melhor insetos móveis como percevejos Entretanto, como observado, óleos podem diminuir a tolerância térmica dos conídio, exigindo cautela em dias muito quentes. A tecnologia de aplicação (bicos adequados, tamanho de gota, etc.) também deve ser otimizada para biopesticidas, que usualmente requerem cobertura uniforme e volumes maiores de água para atingir o dossel das plantas onde os insetos habitam.
  • Compatibilidade e integração com outros métodos: B. bassiana deve ser inserido num contexto de MIP, raramente atuando como “solução única”. Seu uso combinado com outras práticas pode tanto melhorar o controle quanto mitigar suas limitações. Por exemplo, a combinação com inseticidas seletivos de meia-vida curta tem se mostrado eficiente: aplica-se o fungo e, alguns dias depois, um inseticida biorracional para eliminar os indivíduos que não sucumbiram à infecção, obtendo-se um controle completo sem prejudicar a instalação do fungo na área. De modo semelhante, alternar aplicações de fungo e produtos químicos ou Bt pode retardar a resistência das pragas aos químicos e manter a pressão constante sobre a população de insetos. Uma consideração necessária é a compatibilidade de B. bassiana com pesticidas: muitos fungicidas químicos podem inativar conídios do B. bassiana, então deve-se evitar misturas ou aplicações muito próximas de fungicidas de amplo espectro nas áreas tratadas com o bioinseticida. Inseticidas muito persistentes também podem reduzir o reciclamento do fungo via insetos cadavéricos (que serviriam para dispersar novos esporos). Em contrapartida, há evidências de que alguns sub-dosagens de inseticidas podem até sinergizar com B. bassiana ao estressar os insetos e torná-los mais suscetíveis à infecção mas tais interações exigem estudo caso a caso.
  • Seleção de cepas e produção: A eficácia de B. bassiana depende da virulência da cepa utilizada. Cepas nativas bem adaptadas ao inseto-alvo e ao clima local tendem a performar melhor. Programas de seleção têm identificado isolados hiper-virulentos, como a cepa ILB308 do Uruguai que apresentou genes de virulência únicos para melhorar infecção de percevejo Piezodorus guildinii. Contudo, cepas muito específicas podem ter espectro estreito, exigindo múltiplos produtos para diferentes pragas. A produção massal de B. bassiana em biofábricas deve garantir conídios de alta qualidade (viáveis e vigorosos); problemas na formulação ou armazenamento (temperaturas inadequadas, exposição a luz) podem reduzir a infectividade no campo. Portanto, manter a cadeia de frio e aplicar produtos dentro do prazo de validade são cuidados essenciais.

Em síntese, B. bassiana apresenta melhor eficácia em contextos preventivos ou de suporte, reduzindo gradualmente a população de pragas e mantendo-a em níveis baixos, do que como medida de choque em infestações altas. Suas limitações podem ser parcialmente contornadas com tecnologia (formulações, horários de aplicação, cepas melhoradas) e integração inteligente de métodos. Ainda assim, as vantagens ambientais – segurança para aplicadores, ausência de resíduos tóxicos em alimentos, preservação de inimigos naturais (pois B. bassiana tende a ser específico a insetos e menos danoso a polinizadores e predadores) – fazem dele um aliado importante para a sustentabilidade agrícola. À medida que a demanda por práticas agrícolas mais limpas cresce, espera-se também um avanço na eficiência dos bioinseticidas à base de B. bassiana, seja via formulações mais resistentes (por exemplo, conídios encapsulados para proteção UV) ou cepas geneticamente aprimoradas para maior virulência e tolerância ambiental.

Tabela – Principais pragas controladas por B. bassiana em soja, milho e sorgo

A tabela a seguir resume alguns dos principais insetos-praga alvo de B. bassiana em cada uma das três culturas abordadas, junto com a porcentagem média de controle observada em estudos científicos (principalmente na última década). Os valores ilustram a faixa de eficácia que pode ser alcançada sob diferentes condições experimentais.

CulturaPraga-alvo (espécie)Controle médio (%)
SojaPercevejo-marrom (Euschistus heros)~80% (adultos, 12 dias pós-aplicação)
pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
SojaLagarta-da-soja (Helicoverpa armigera)86% inicial (reduz a ~30% em 8h, campo)
link.springer.com
MilhoLagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda)71–93% (larvas, 14 dias em laboratório)
pmc.ncbi.nlm.nih.gov
SorgoPulgão-da-cana (Melanaphis sacchari)>90% (ninfas, condição laboratorial)
sciencedirect.com

Observação: Os percentuais referem-se a estudos específicos, podendo variar conforme a cepa do fungo, a forma de aplicação e as condições ambientais. Em campo aberto, os níveis de controle tendem a ser menores do que em condições controladas de laboratório ou casa de vegetação, devido aos fatores discutidos no texto Contudo, os dados evidenciam que B. bassiana pode alcançar controle significativo das pragas-chave, especialmente quando empregado dentro de um manejo integrado e em condições favoráveis à sua ação.

Conclusão

O uso de Beauveria bassiana no controle de insetos-praga em culturas como soja, milho e sorgo representa um avanço rumo a práticas agrícolas mais sustentáveis. Este fungo entomopatogênico demonstrou capacidade de controlar importantes pragas dessas culturas – dos percevejos e lagartas da soja, passando pela temida lagarta-do-cartucho do milho, até o pulgão devastador do sorgo – contribuindo para a redução da dependência exclusiva de inseticidas químicos. Embora apresente desafios de eficácia em campo, decorrentes de fatores ambientais e biológicos, a contínua pesquisa e inovação em bioformulações, seleção de cepas e estratégias de aplicação têm aprimorado seus resultados práticos. Quando integrado em programas de MIP, B. bassiana atua de forma complementar a outros métodos de controle, promovendo uma supressão de pragas mais equilibrada e segura para o ecossistema agrícola. Em um cenário de busca por produtividade com responsabilidade ambiental, B. bassiana consolida-se como uma ferramenta valiosa, aliando ciência e natureza no enfrentamento das pragas agrícolas. Seu emprego bem-sucedido nas lavouras dependerá de conhecimento técnico – por parte de agrônomos, estudantes e técnicos – para explorar todo o potencial do fungo, maximizando sua eficiência e contornando suas limitações. Com abordagem criteriosa, B. bassiana pode se tornar cada vez mais um pilar do controle biológico nas grandes culturas, garantindo proteção de cultivos com menor impacto ambiental, em linha com os princípios da agricultura sustentável e da saúde do agroecossistema.